Joaquim Pires Jorge

<font color=0094E0>Um revolucionário de corpo inteiro</font>

Foi na Ajuda, em Lisboa, no dia 28 de Novembro de 1907, que nasceu Joaquim Pires Jorge. Os seus pais eram camponeses de Castelo Branco que tinham rumado à capital em busca de trabalho e de uma vida melhor. O pai, depois de trabalhar em várias fábricas, torna-se guarda-freio na Carris, ao passo que a mãe vende bijutarias na Praça da Ribeira.
Após ter feito a 4.ª classe na escola da Promotora, ao Calvário, começa a trabalhar numa fábrica de cortiça, com apenas 11 anos. Depois, torna-se aprendiz de serralheiro numa oficina especializada em travões de carroças.
Durante o serviço militar, na Marinha, é incorporado na Banda da Armada, aproveitando os conhecimentos musicais adquiridos nas colectividades de Lisboa. É na Marinha que dá os primeiros passos na actividade antifascista. Talvez inspirado pela militância sindical do pai na Carris, participa na revolta militar de 7 de Fevereiro de 1927. Na sequência desta revolta, é deportado para Angola, onde fica dois anos.
Regressado a Portugal, e à Marinha, liga-se à ORA (Organização Revolucionária da Armada) e estabelece os primeiros contactos com o PCP, através de Manuel Guedes. Pela sua participação na oposição à ditadura, é preso e encerrado no Quartel da Armada, tendo conseguido escapar pouco depois.
Refugiado em Espanha, em Valência de Alcântara e depois em Málaga, não tarda em regressar. Aceitando o convite do militar oposicionista Sarmento de Beires para participar num golpe militar em preparação, viu a casa onde se realizava uma reunião conspirativa deste grupo ser cercada pela polícia. Pires Jorge escapa-se pelos telhados, saltando de casa em casa, trocando tiros com os seus perseguidores. Forçado a fugir, ruma a Espanha.

Finalmente, o Partido

Após travar conhecimento com o dirigente do PCP José Gregório, em 1934, cumpre um velho desejo – adere ao Partido. Pouco depois, regressa ao País para lutar na clandestinidade. Uma das suas primeiras tarefas foi a de criar um aparelho de fronteira que permitisse o apoio a camaradas em fuga.
Numa dessas passagens clandestinas de fronteira, na ocasião a levar Manuel Guedes para Espanha, que fugira do Tribunal Militar Especial de Santa Clara, Pires Jorge é preso pela Guarda Civil espanhola, ficando detido durante quase dois anos. Extraditado para Portugal, é encerrado no Aljube, sendo depois transferido para a fortaleza de Angra do Heroísmo, onde permanece até 1940, quase sempre isolado.
Libertado em 1940, depara-se com grandes dificuldades em encontrar emprego devido à sua condição de ex-preso político. Os pais e um amigo compram um automóvel e Joaquim Pires Jorge tornou-se motorista de táxi. Para além dos normais clientes, transporta no seu carro dirigentes do Partido, empenhados na reorganização.
Pouco depois, retorna à clandestinidade – e à prisão. Encarcerado em Caxias, ali permaneceu por poucas horas. Invocando dores de dentes, consegue ser levado ao hospital de S. José de onde, aproveitando o movimento de doentes, se escapa aos pides que o acompanhavam.
Em 1943, está no III Congresso do PCP (I ilegal). Eleito para o Comité Central, fica com a responsabilidade do controlo da actividade do Partido na zona norte – ou seja, de todo o território de Coimbra a Trás-os-Montes. Até ao IV Congresso, em 1946, fica no norte, onde percorre centenas de quilómetros de bicicleta.
Após o IV Congresso, onde apresenta o relatório sobre agitação e propaganda, é enviado para o sul, juntamente com Francisco Miguel. Aí dirige a actividade do Partido a sul do Tejo, que incluía dois fortes comités regionais: Margem Sul e Alentejo.

Destacado dirigente do PCP

Em 1949, o Partido sofre um dos mais rudes golpes na sua organização nos tempos da ditadura. Quase todo o Secretariado é preso – Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e José Gregório. Pires Jorge é chamado ao Secretariado, onde se mantém durante quase toda a década de 50, em condições particularmente difíceis.
Em 1959, com Octávio Pato e Dias Lourenço, participa na preparação da fuga de Peniche, que, no terceiro dia do ano seguinte, restitui à liberdade Álvaro Cunhal e outros destacados dirigentes do Partido.
No final de 1961, quando se encaminhava para uma reunião do Comité Central, Pires Jorge é preso e condenado a 10 anos com «medidas de segurança». Apesar de se encontrar detido, é eleito para o Comité Central no VI Congresso, em 1965.
Com a saúde debilitada, é libertado em 1971. Graças ao seu conhecimento de espanhol, arranja trabalho como tradutor. Mas rapidamente o Partido trata de o enviar para o estrangeiro, a fim de recuperar dos dez anos passados na cadeia. Depressa volta ao trabalho partidário e ao Secretariado do Partido.
O 25 de Abril encontra-o em Paris, com Álvaro Cunhal e Sérgio Vilarigues. Por decisão do Partido, só regressa a Portugal alguns meses depois da Revolução. Em Outubro, é ele que preside à sessão de abertura do VII Congresso (Extraordinário) do PCP.
Após o Congresso, é destacado para Coimbra, para acompanhar a organização das Beiras. Mais tarde, integra a Secção Internacional do Partido.
O seu coração parou de bater a 6 de Junho de 1984. Tinha 77 anos. O seu funeral saiu do Centro de Trabalho de Alcântara do PCP e foi seguido por milhares de pessoas. Na ocasião, Octávio Pato realçou o «revolucionário de corpo inteiro, e que foi sempre um exemplo para quantos o conheciam. Na luta clandestina, nas prisões ou frente às torturas da PIDE, situações onde melhor se conheciam os homens e os revolucionários, Pires Jorge mostrou sempre a sua inabalável firmeza, a sua fidelidade aos interesses da classe operária e ao Partido, o seu ardente patriotismo».


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